Revitalizar os ‘Guardiões’: Conhecimento Tradicional na Gestão de Pescas Liderada pela Comunidade

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A Guerra Muda o Mar

A Baía de Inhambane já foi abundante, repleta de vida marinha sob a gestão cuidadosa de anciãos que conheciam os ritmos do oceano, os seus segredos e o equilíbrio que ele exigia. José Luciano Nhamussua, um respeitado líder comunitário, recorda bem esse tempo. Mas lembra-se também de como essa harmonia foi perturbada pela guerra civil de 16 anos em Moçambique. Forçou pessoas do interior a migrar para a costa em busca de comida, e estes recém-chegados não tinham cultura de pesca nem compreendiam como cuidar do oceano.

Antes da guerra, os mais velhos faziam cumprir as regras de pesca consuetudinárias, garantindo que as áreas de reprodução permanecessem protegidas e que as épocas de pesca fossem respeitadas. Muitos destes ‘Vigilantes’ faleceram durante a guerra, e o seu conhecimento não foi transmitido, o que levou a práticas de sobrepesca e, por sua vez, à perturbação dos delicados ecossistemas subaquáticos que alimentavam a comunidade e os protegiam das tempestades.
Existem muitos exemplos em todo o mundo de Povos Indígenas e Comunidades Locais que geriram os seus ambientes utilizando conhecimentos ecológicos tradicionais passados através de gerações até que forças externas como guerra, colonização ou mudanças económicas perturbaram o equilíbrio, degradando os recursos naturais e destruindo os meios de subsistência. Os Māori da Nova Zelândia praticam tradicionalmente o kaitiakitanga (tutela) sobre as suas terras e utilizam o rahui (proibições temporárias) para permitir a recuperação das populações de peixes, enquanto os havaianos pré-coloniais geriam os recursos terrestres e marítimos através de um sistema chamado ahupua‘a, que dividia a terra da montanha ao oceano. Mais perto de casa, os pastoralistas Maasai do Quénia e do norte da Tanzânia usavam o eramatare oo ntaat oo nkishu, um sistema tradicional de pastagem que deixava algumas áreas de pastagem intocadas até à estação seca. Todas estas comunidades lutaram para equilibrar os métodos tradicionais com as pressões modernas, de forma muito semelhante ao povo Bitonga da Baía de Inhambane.
Luciano passou muitas noites na linha de costa, vendo os pescadores regressarem com capturas magras. Sabia que, se o ciclo de destruição não fosse quebrado, as gerações futuras herdariam águas vazias. Mas o Conselho Comunitário de Pesca que ele liderava não tinha o poder de fazer cumprir as regras que aprendeu com o seu avô, e a burocracia governamental atrasava o seu progresso para tornar esse saber legal. Sem ação, os pescadores da Baía de Inhambane perderiam tanto os seus meios de subsistência como o seu património.

Aproximou-se da Ocean Revolution Mozambique (ORM), na esperança de que pudessem colmatar a lacuna entre as tradições da sua comunidade e os esforços modernos de conservação. A organização era famosa por erguer populações locais. Tinha estado a formar moçambicanos para se tornarem mestres de mergulho para que, também eles, pudessem lucrar com os milhares de turistas que acorriam todos os anos para se maravilhar com as águas mágicas do país.

Mergulhar na Conservação Liderada pela Comunidade

Sacramento Cabral, Diretor Executivo da ORM, iniciou a sua jornada dessa forma. Cresceu junto ao mar, mas nunca se imaginou como líder. Quando jovem, a estudar para obter o grau em Comunicação e Desenvolvimento Rural, regressou à sua aldeia em Inhambane para uma competição de natação. O seu prémio como vice-campeão foi um curso de mergulho, e isso acendeu uma paixão que não se desvaneceria. “Eu tinha lido sobre mergulho, visto vídeos e sonhado com a experiência”, recordou. “Quando finalmente tive a oportunidade, soube que era isto que eu queria fazer.”

“O meu primeiro mergulho em Bazaruto não correu bem porque tive dificuldades em equalizar os ouvidos. Saí frustrado, mas algo dentro de mim disse-me que tinha de tentar outra vez.” Ele riu-se, recordando como a sua determinação o levou a aderir ao programa Bitonga Divers da ORM. Tornou-se um dos primeiros instrutores de mergulho locais de Moçambique e, em breve, começou a dar palestras nas aldeias sobre o oceano, que faziam parte do seu programa de divulgação comunitária. Agora, doze anos depois, a ORM é o trabalho da sua vida e ele está a liderar esforços para trabalhar com as populações locais como Luciano na proteção do ambiente marinho de Moçambique.

Quando Luciano abordou a ORM, ouviram a sua história e trabalharam com o conselho de pesca para encontrar uma solução. "Não se tratou de convencer as pessoas – foi a vontade delas”, disse Sacramento quando lhe perguntaram se enfrentaram resistência ao plano de restabelecer as zonas de não captura. “Nós não impomos ideias; nós incubamos iniciativas comunitárias.”

Unindo Comunidades, Ciência e Estado

As Zonas de Não-Pesca funcionam. Documentaram evidências de recuperação de stocks de peixe e do regresso de espécies nas áreas que a comunidade tinha reservado, acrescentando inúmeros registos que mostrar a fusão entre o conhecimento tradicional e a ciência é uma abordagem eficaz para conservar a natureza. A ponte que construíram entre os pescadores, investigadores da Universidade Eduardo Mondlane e órgãos governamentais garantiu que a sabedoria dos Vigilantes fosse reconhecida como uma ferramenta de conservação legítima. A parceria é talvez a conquista de que a ORM mais se orgulha. 

"Compreendemos que, na maioria das partes do mundo, é muito difícil que as comunidades trabalhem em conjunto com ONGs, o meio académico e o governo. Mas provámos que é possível. O governo viu que estas pequenas áreas marinhas protegidas, impulsionadas pela comunidade, estavam a funcionar e percebeu que não precisava de investir muito dinheiro na fiscalização. As comunidades já estavam a fazer o trabalho."

Desde então, a ORM tem trabalhado com parceiros para fortalecer a conservação marinha na Baía de Inhambane. O interesse espalhou-se rapidamente para áreas vizinhas, resultando na colaboração com mais aldeias que queriam implementar medidas de conservação semelhantes. Estabeleceram 12 zonas de não pesca que abrangem 3.000 hectares e permitiram que os stocks de peixe recuperassem naturalmente e migrassem para áreas próximas, criando um efeito de transbordo para outras comunidades de pescadores. A sua abordagem teve um impacto profundo na biodiversidade, com o regresso de espécies-chave como tartarugas marinhas, dugongos e tubarões-baleia, bem como espécies de pesca artesanal, aos ecossistemas marinhos outrora degradados. 

A organização, liderada por quatro jovens moçambicanos apaixonados, apoiou projetos comunitários de restauração de ervas marinhas e mangais, cobrindo, no total, mais de 5.000 hectares e criando viveiros vitais para peixes, tubarões, raias e crustáceos. O seu trabalho tem benefícios para os habitats, os meios de subsistência e o clima: a regeneração dos mangais ajudou a mitigar as marés de tempestade, a reduzir o impacto da erosão costeira e a salvaguardar os meios de subsistência locais, enquanto os leitos de ervas marinhas, cruciais para a sequestração de carbono, agora prosperam. Os esforços de conservação da ORM estão profundamente entrelaçados com o bem-estar das pessoas, garantindo que a preservação do ambiente também significa a preservação de um modo de vida.

Meios de Subsistência Para Além do Oceano

Apesar de terem feito grandes progressos para conservar o ambiente marinho, o crescimento das populações e a escassez de recursos significam que muitos jovens na Baía de Imhambane ainda enfrentam um futuro incerto. Aqueles que dão continuidade ao legado da pesca são por vezes forçados a aventurar-se em alto mar perigoso, e outros recorrem a meios ilegais e prejudiciais para sobreviver. 

Reconhecendo a urgência da situação, Sacramento explicou que a ORM voltou a contactar a população local. "Sentámo-nos com a comunidade e discutimos que atividades poderiam desenvolver para além da pesca. Muitos jovens demonstraram interesse em carreiras não marítimas e, agora, formámos mais de 180 indivíduos que trabalham com sucesso como canalizadores, mecânicos e até na agricultura."

Estes novos percursos profissionais ajudam a garantir que os esforços de conservação apoiem a estabilidade económica. As bolsas de formação profissional da ORM têm ajudado jovens a tornarem-se mecânicos de barcos e capitães, auxiliando-os a encontrar emprego no ecoturismo e a reforçar a indústria pesqueira sustentável para reduzir a pressão sobre águas sobre-exploradas. Outros são formados em canalização, costura e agricultura em pequena escala, ajudando-os a diversificar as suas fontes de rendimento e a tornarem-se menos dependentes das imprevisíveis épocas de pesca. 

Luísa, filha de um pescador, recebeu formação como parte do programa da ORM e adquiriu competências como eletricista automóvel, uma profissão predominantemente masculina. Atualmente trabalha numa oficina mecânica em Maxixe, inspirando outras jovens a seguir ofícios técnicos. 

Para além destas medidas de subsistência, os programas da ORM melhoram a segurança alimentar e fortalecem a estabilidade dos agregados familiares. A agricultura em estufa e os pequenos negócios de pecuária ajudam as famílias a reduzir a dependência excessiva dos stocks de peixe cada vez mais escassos, ao mesmo tempo que proporcionam rendimentos diversificados. Estas iniciativas aliviam a pressão sobre o oceano, prevenindo a sobrepesca e promovendo a resiliência financeira na comunidade. 

Ampliar o Modelo: A Visão da ORM para a Conservação Marinha Liderada pela Comunidade

O sucesso da ORM na conservação impulsionada pela comunidade não veio sem desafios, e a sustentabilidade financeira continua a ser um dos seus maiores obstáculos. Forem forçados a reduzir algumas das suas intervenções. No entanto, continuam a executar programas essenciais: gestão das pescas, apoio à patrulha e restauração de ecossistemas, numa base limitada. Os líderes da organização são cautelosos sobre onde e como recebem financiamento, preferindo até mesmo renunciar ao pagamento e trabalhar voluntariamente até encontrarem o financiamento certo. “Não queremos parceiros que venham com as suas ideias e nos digam o que temos de fazer”, explicou Sacramento. “Precisamos daqueles que apreciam e apoiam as soluções que vêm da comunidade.” 

A ORM está agora a investir na melhoria da sua comunicação de impacto para apresentar eficazmente os seus resultados a potenciais doadores e partes interessadas e garantir apoio financeiro a longo prazo. “Temos tido muita influência a nível local, mas precisamos de partilhar mais”, enfatizou. “Queremos que o mundo compreenda o que estamos a fazer e porque é que isso importa.”

"As populações locais sempre protegeram a natureza. Se as ouvirmos, apoiarmos e confiarmos nelas, serão elas a liderar o caminho… É assim que vemos o futuro. Queremos percorrer o país, não apenas estar aqui na província de Inhambane, mas também alargar o nosso trabalho a outras províncias."

As populações locais sempre protegeram a natureza. Se as ouvirmos, apoiarmos e nelas confiarmos, elas liderarão o caminho... É assim que vemos o futuro. Queremos percorrer o país, não nos limitando à Província de Inhambane, mas expandindo o nosso trabalho para diferentes províncias.

Sacramento Cabral, ORM

Olhando para o futuro, Sacramento acredita que o futuro da ORM está centrado na sustentabilidade e na independência comunitária. Ele prevê um tempo em que as populações locais possam gerir os recursos marinhos de forma independente, sem depender da ORM ou de ONGs externas. A ORM trabalhará com a Maliasili nos próximos quatro anos para fortalecer a organização, investindo em estratégia, comunicação e angariação de fundos para amplificar o seu impacto e escalar o seu modelo. Mas, embora a ORM tenha tido grande sucesso na Baía de Inhambane, Sacramento tem cautela em expandir demasiado rapidamente. “Temos uma história para contar aqui, mas ainda não acabou”, afirma. 

O apelo de Luciano foi atendido, como evidenciado pelo outrora abundante oceano e pelos seus zelosos cuidadores. Os Observadores regressaram, mas agora numa nova forma: um coletivo de conservacionistas comunitários, líderes da ORM e a próxima geração a proteger a Baía de Inhambane.

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A Maliasili existe para ajudar organizações locais de conservação talentosas a superar os seus desafios e limitações, para que possam tornar-se agentes de mudança mais eficazes nas suas paisagens, comunidades e países.

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